terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Carta Pastoral N° 01
“Que todos sejam um como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21)
O chamado tão conhecido “Segue-me”(Mt 9,9) que Jesus Cristo faz ao publicano Mateus é simples porém não é de modo algum pouco desafiador. Deixar tudo para assumir uma perspectiva nova de ver a realidade, as pessoas e a própria história exige, daquele que se propõe seguir o Cristo, uma atitude de olhar à frente e não voltar atrás. Esse chamado ao seguimento do Cristo é comum a todos os baptizados. Somos todos, sem distinção, discípulos de um único e mesmo Mestre; convocados a trabalhar na messe, a anunciar oportuna e inoportunamente. A trajectória histórica que buscou articular a pastoral da Igreja no Brasil: 1. 1. 1962 – CNBB: 1° Plano de Pastoral, denominado Plano de Emergência. 2. 2. 1965 a 1970 – CNBB: 2° Plano de Pastoral, denominado Plano de Pastoral de Conjunto. Finalidade: Adequar as decisões do Vaticano II à realidade brasileira. Foi do Concílio que surgiu as 6 dimensões(linhas) de ação pastoral: 1. Unidade na Igreja (LG) 2. Catequese (DV) 3. Liturgia (SC) 4. Ecumenismo(UR) 5. 5. Missão e Diálogo Religioso (AG e NA) 6. 6. Presença do Mundo (GS) 3. 3. Em 1971 a CNBB fez uma avaliação desses dois planos e constatou que a realidade brasileira era bastante complexa e com muitas diferenças regionais e eclesiais. Devido a isso, decidiu não mais fazer “Planos”. Cada diocese começou a fazer o seu. A CNBB começou a elaborar apenas um “marco teórico”, que fosse referência para a elaboração dos planos locais. Tal “marco teórico” foi denominado de “Directrizes Pastorais”. 4. 4. As Directrizes Pastorais são elaboradas a cada quatro anos. É definido o “Objetivo Geral” da ação pastoral, e são feitos alguns destaques pastorais. Na 46° Assembleia Geral da CNBB que realizar-se-á no próximo mês de abril em Indaiatuba/SP, nós bispos, iremos elaborar as “Novas Directrizes”,iluminada certamente pelo documento de Aparecida, para a Igreja no Brasil. O Objectivo de nossa pastoral é formar o povo de Deus. É agrupar os remidos na comunidade de salvação. É levar os baptizados a viver sua inserção no Corpo Místico. É fazer de cada cristão um prolongamento do Verbo feito carne, no testemunho da Boa Nova e na participação da vida. O Ato fundamental de nossa pastoral é, portanto, a pregação da Mensagem. Ide e Pregai - foi o mandato de Cristo. Eu fui enviado para evangelizar – repete São Paulo. Nós nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra – acentuam os apóstolos, deixando aos diáconos os cuidados temporais da comunidade cristã. Esta foi sempre a consciência viva da Igreja e sua norma de acção. E continua sendo sua linha constante e preocupação perene. Nem sempre, porém, assim agem na prática os homens da Igreja, que somos nós. Sorrateira e insensivelmente entram às vezes outros ângulos de visão pastoral e outras perspectivas de actuação apostólica, invertendo a escala de valores e alterando a ordem das metas. Pastoral da pedra e do tijolo. Muito comum em nossos dias. Tónica dominante de muitas vidas apostólicas. Tão generalizada, a ponto de constituir critério importante e quase predominante de distinção e merecimento. Mede-se, com frequência, a eficácia da acção pastoral pelo tamanho do templo, pela altura da torre ou alinhamento dos Salões Paroquiais. Se as construções materiais são necessárias e indispensáveis, parece não justificar-se, principalmente neste momento histórico, tal preocupação prioritária. Precisamos construir a Igreja viva. Mais do que obras pomposas, com placas de vaidade, a actuação do fermento que revoluciona e transforma. Em primeiro lugar, a comunidade viva dos filhos de Deus, e depois, como consequência, sua casa de oração e de culto. Se uma parte apenas do vultuoso numerário que gastamos em construções materiais, muitas vezes adiáveis, fosse empregado na formação de militantes e líderes, que é urgente e inadiável, outra seria hoje nossa situação. E não se venha com a alegação ingénua e capciosa e superada de que o Cristo de nossos templos merece o que há de melhor. Sim, é uma verdade inconteste e testemunhada pelo próprio Cristo na cena do alabastro. Mas não é toda a verdade. Porque o Cristo do próximo é o mesmo que o da Eucaristia, embora em aparência diversa. E deixar o Cristo no próximo, que sofre fome e enfermidade, para ornamentar templos, que muitas vezes são mais ostentação de vaidade do que amor a Cristo, não parece muito evangélico, nem de acordo com a voz dos tempos. Aproveitemos a FAMIPAR e formemos as nossas lideranças leigas para serem sal, fermento e luz do mundo. Pastoral do alimento e do agasalho. A Igreja sempre foi pioneira em realização de caridade e assistência social. Graças a Deus, a maior parte das obras sociais são de sua iniciativa ou inspiração. E isto constitui apologética viva e testemunha perene de vitalidade cristã. Mas não é esta a missão específica da Igreja. Nem deve ser a preocupação característica do presbítero. Seu papel será antes formar e assessorar os leigos, que assumam esta responsabilidade e tarefa. Tarefa que deve ser um amplo e sistemático esforço de promoção humana, visando não apenas a ajudar necessitados, mas atingir e sanar a fonte dos desajustes sociais. E não de forma paternalista como é tendência da mentalidade burguesa e de certa mentalidade clerical de arrumar “dinheiro de fora” e o seu sucessor “que se dane”! Não está na linha normal da autêntica pastoral evangélica absorver-se o presbítero em obras de assistência e caridade. Mas em formar o povo cristão, de tal maneira que de sua comunidade brotem naturalmente obras e instituições de auxílio fraterno. Em nossa Arquidiocese existem muitas entidades individuais ligadas à Igreja. Precisamos, com paciência, estudarmos a possibilidade de todas elas estarem inseridas na Cáritas Arquidiocesana permanecendo com o mesmo nome de fantasia. Pastoral da rotina sacramental. Os sacramentos são fontes de vida e canais da graça. E aqui vai aspecto essencial de nossa missão sacerdotal. Infelizmente, porém, acontece que nós continuamos administrando a um povo ignorante e paganizado, com muitas excepções, graças a Deus. Executamos ritos que não são entendidos, e muito menos assimilados e vividos. Estamos mecanizando os sinais da graça. Mais eficaz, por exemplo, do que passar dias e semanas distribuindo maquinalmente absolvições a um povo impreparado, parece-nos que seria promover uma boa e sólida evangelização, de maneira a levar um encontro vital com Cristo, mediante um sincero arrependimento, espiritualmente mais eficaz do que a mera recepção rotineira e mecânica de um sinal da graça. Há um equívoco e ilusão de nossa parte pensarmos que estamos ministrando sacramentos a um povo cristão, quando este na verdade vive na ignorância e à superfície ou à margem do evangelho. Administração de sacramentos supõe evangelização. Evangelização sistemática e adequada à fisionomia do tempo, que seja uma autêntica apresentação do Cristo vivo na Igreja. A confissão comunitária não é permitida na Arquidiocese, considera-se inválida e o presbítero que administrá-la será responsabilizado na forma da lei canónica. Pastoral de preservação e defesa. Foi em grande parte o que fizemos até hoje na formação dos nossos cristãos. Limitamo-nos a preservá-los do mal, o que aliás não conseguimos. Orientamo-los para as atitudes estreitas e negativas de não – contaminação. Não lhes temos dado a mística missionária nem os lançamos à conquista de outros. E por isso, tão pouco, conseguimos. Hoje que o mal entra de todos os lados e por todo os cantos, através das técnicas as mais variadas, envolventes e subtis, não basta ao cristão uma atitude de defesa. Guerra defensiva só pode levar a derrota. Não se pode nem se deve isolá-lo para impedir que a influência do mal o atinja. É mister, sim, à semelhança da terapêutica moderna vaciná-lo contra o contágio do mal, tonificando-o por dentro. É preciso dar-lhe a mística da conquista, do testemunho vivo de uma presença activa e irradiante. É preciso responsabilizá-lo e entusiasmá-lo pela mensagem, da qual não é dono e possuidor pacífico, mas depositário e mensageiro. Depositário angustiado e mensageiro dinâmico da Boa Nova da salvação. Porque o cristianismo mais do que uma organização mundial deve ser uma perene revolução espiritual. Pode-se dizer que é por falta de mensagem positiva, bem pregada e melhor vivida, que conquistamos tão poucos cristãos, e que perdemos tantos outros. O católico tem que pensar, falar e agir como católico! Pastoral burguesa de espera. Passou-se o tempo da pastoral de cristandade, em que os fiéis nos venham procurar. Hoje, impõe-se uma linha de procura e busca, de penetração nos ambientes, de infiltração nos diversos meios. É mister limitar as horas de expediente burocrático – que é necessário – para ampliar o tempo dedicado à busca missionária. Pastoral de busca e procura é mais difícil e trabalhosa e cansativa do que a de espera. Mas foi a ensinada e praticada por Cristo e pelos apóstolos. Cristo não esperou no templo nem apenas nas sinagogas para falar ao povo. Ele foi à procura dia e noite. Ora com a samaritana à beira do poço, ora com Nicodemos no silêncio e na calada da noite, ora com as multidões à beira do lago ou na quietude do deserto. E os apóstolos não esperaram que os convertidos caíssem pelos telhados do cenáculo. Pastoral de guetos e ligas esclerosadas. Nossas associações clássicas prestaram óptimos serviços no passado, em todos os campos do apostolado. E algumas delas continuam a servir à Igreja com muito zelo, dedicação e eficiência apostólica. E quem isso negasse, faltaria à verdade e pecaria contra a caridade. Parece, porém, que muitas vezes há demasiada perda de tempo com associações inoperantes, cuja actividade se limita mais ou menos a fazer reuniões e a lavrar atas, para serem depois lidas e aprovadas na próxima sessão. Se tais associações não for possível vitalizá-las e lançá-las `a conquista, seria melhor desinteressar-se delas, para criar outras mais de acordo com a dinâmica dos tempos. Querer conservá-las apesar disso, só por amor à tradição seria cultuar tabus, desservir à Igreja e trair Cristo. Associações que só sirvam para tirar o tempo do sacerdote, perderam sua razão de ser. Porque o problema não é de como poderemos salvar nossas associações, mas como, com elas ou sem elas, melhor servir à Igreja. Pastoral do arranjo e do jeitinho. Uma das primeiras expressões que o estrangeiro aprende a dizer e a praticar no Brasil é a de “dar um jeito”.E com isso, ele se introduz em todos os métodos de arranjos e acomodações, escamoteamentos e burlas em relação à verdade, à justiça e ao direito. Infelizmente, há entre nós um jeito de torcer qualquer princípio e tapear qualquer lei ou regulamentação. Mas o pior é que esta mentalidade de arranjos e acomodações, consciente ou inadvertidamente, vai atingindo até presbíteros. Alegando finalidades boas e apostólicas, empregam-se às vezes linguagem e expedientes que não condizem com o sim e o não do Evangelho. Pretextando que o costume consagra lei, até no apostolado vão se dando a certos arranjos duvidosos os foros de mediação legítima e autêntica. Se por jeitinho se entender compreensão e adaptação às pessoas e aos tempos, suavidade e delicadeza no modo; inteligência e inventiva na escolha e adequação dos meios ao fim, todos estamos de acordo. Se porém, se quiser com isso consagrar o principio de que é lícito fazer o que todo mundo faz, então nossa resposta será o não formal e categórico do Evangelho. Do contrário, que força teria nossa pregação evangélica? Que autoridade nossa denúncia a condenação dos abusos e infracções, que estão tragicamente corroendo o cerne da sociedade? A palavra que a Igreja anuncia não é a conclusão de um puro raciocínio, nem a verbalização de uma simples experiência. Ela não está para somar a palavra dos homens: sua verdade não é soma de opiniões e não é resultado matemático dado pela maioria. Mesmo que ela fique sozinha com a palavra recebida, ela deve anunciá-la, como palavra última e definitiva, uma palavra diante da qual os homens devem tomar decisão salvífica: “Pois não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devemos ser salvos” (At 4,12). Pastoral do silêncio e do calculismo. É a atitude dos que curvam a espinha dorsal diante dos grandes e poderosos. Em simbiose permanente com os representantes dos poderes constituídos. Apoiando sistematicamente, com a palavra ou com o silêncio, suas atitudes, mesmo quando fora da órbita de suas legítimas funções. Para não criar casos ou não perder favores e subvenções, deixando de apontar ou condenar violações da justiça e do direito. Assistindo em silêncio à opressão dos pobres e humildes, à perseguição e arbitrariedades, à corrupção administrativa, ao esbanjamento dos dinheiros públicos e à incúria em tratar dos interesses do Bem Comum. Nossa atitude deve ser de respeito aos poderes constituídos. De apoio às justas medidas governamentais. De colaboração com todas as iniciativas em favor do Bem Comum. Colaboração de dois poderes independentes, que se completam na visão integral do homem. Nunca, porém, numa linha de apoio incondicional. Nunca com sacrifício da verdade e da justiça. Nunca com o silêncio em face flagrante violação da lei de Deus e das justas leis humanas. Nunca com a hipertrofia do poder civil e a subserviência do religioso. Não há coisa mais preciosa, da qual nunca se pode abdicar a não ser pela violência, do que a independência apostólica de dizer a verdade, tanto aos humildes quanto aos poderosos, embora sempre com caridade. Esta é a atitude eminentemente evangélica, testemunhada com vigor em toda a história da Igreja. Pastoral da colcha de retalhos. O cristianismo não é apenas conjunto de práticas. Nem mero sistema doutrinário ou filosófico. Ele é um fato histórico: o Verbo feito carne. O Verbo que assume a humanidade e a redime, tornando-a seu Corpo. Daí ser a vida cristã uma união vital e orgânica com Cristo. Uma adesão consciente e pessoal a Cristo. Um compromisso de amor com Ele. O cristão, um homem novo com uma vida nova. Que forma Cristo, não apenas como objecto, mas como ponto de partida, norma de pensamento e medida de tudo. Um homem convertido no rigor do termo, metamorfoseado e radicalmente transformado em sua maneira de pensar e agir. Um homem assumindo o risco de uma aventura e não apenas uma busca de um refúgio ou salvação confortável. Um homem que livremente tome a partilha de uma Cruz. Abraça um paradoxo. Aceita um mistério: o mistério de Cristo e da Igreja. Melhor, o mistério do Cristo vivo na Igreja, sem as dissociações racionais dos esquemas teológicos. Muitas vezes pregamos uma religião estreita, medíocre e mesquinha. Um código de preceitos negativos, de restrições, proibições e anátemas. Uma doutrina sem originalidade ou organicidade, nem síntese. Um conjunto de práticas sem motivação nem nexo íntimo e vital. É preciso voltar ao Evangelho vivo. À pregação querigmática de São Paulo e dos primeiros cristãos. À catequese de profundidade e interiorização, onde a teologia se torne mística operante, a moral espiritualidade dinamizadora e os sacramentos mistérios profundos inseridos na vida. Pastoral do monopólio clerical. Herança de um passado longínquo, em que a cultura e toda fisionomia da sociedade tinha um carácter sacral de integração em torno de valores espirituais. Em que a Igreja dominava as estruturas e instituições temporais, no vértice de cuja pirâmide estavam sempre os valores religiosos e morais. Quando o Papa traçava as fronteiras das nações, dirigia conflitos, coroava e depunha Reis e imperadores. Quando os Bispos eram também príncipes seculares e os Párocos praticamente chefes de comunas. Quando a palavra do Padre era um dogma e uma lei em todos os aspectos da vida humana, do recreativo ao espiritual. Sem entrar na apreciação e avaliação de tal mentalidade e estruturação social, o fato indiscutível é que hoje estamos vivendo uma cultura profana, secular, pluralista e não integrada em valores mais altos, em que a religião esteja no vértice ou centro, mas simplesmente paralela às demais instituições que polarizam os interesses do homem. E nesta ordem social, a Igreja não poderá e nem deverá dominar as estruturas e instituições temporais, mas informar, mentalizar e vivificar. E esta influência nas estruturas deverá ser feita através dos leigos, com os quais o sacerdote deverá dividir as responsabilidades da comunidade cristã. Deverá, portanto, ser proscrito e excluído o monopólio clerical dos que, tratando os leigos como meninos de recados, tudo pretendem fazer sozinhos. Eliminada a desconfiança dos que não admitem iniciativas que partam do laicato. Superada a auto-suficiência dos caciques clericais, que não concebem sugestões e planificações que não tragam a chancela de sua inspiração e direcção pessoal e imediata. Evidentemente, para isso, os nossos leigos devem ser formados. Formados, e não improvisadamente mandados como crianças ou menores sem compreensão nem responsabilidade. Formados na base de uma vida cristã de sabor e substância evangélica. Formados numa adesão vital a Cristo e não apenas numa simpatia pessoal pelo padre. Só com leigos que descobriram Cristo e com Ele assumiram compromisso de amor, poderemos realizar um trabalho de evangelização e conversão, que só pode ser feito em comunidade e pela comunidade. Com o Concílio Vaticano II, veio a compreensão do Baptismo como uma grande fonte de ministérios e de que os leigos são chamados a desempenhar diversos serviços na comunidade, não somente como suplentes. Não se escolhe líder para enfeitar a Pastoral, mas para os serviços existentes, A formação é uma exigência da Igreja, pois precisamos de lideranças leigas formadas com o pensamento teológico, pastoral, litúrgico, bíblico, catequético, enfim, que abranja o grande conjunto de áreas que são necessárias para qualificar a presença e a actuação da Igreja no mundo de hoje. Também a formação para uma inserção social política e económica das nossas lideranças leigas, calcadas no Ensino da Doutrina Social da Igreja. As lideranças leigas são de enorme importância dentro da Igreja porque todos os leigos participam, a partir do Baptismo, do sacerdócio comum.
Cascavel, 24 de fevereiro de 2008.
Dom Mauro Aparecido dos Santos


